Um dia de... uma assistente de bordo


03.08.2016
redação

Raquel Cascarejo tem 24 anos e sempre quis ser jornalista, mas o destino tinha outros planos para ela. Levou-a a voar o mundo. Literalmente. É assistente de bordo na companhia aérea Emirates e trocou um trabalho instável e mal remunerado pelo que considerou ser o "plano B" da sua vida. Raquel é licenciada em Ciências da Comunicação: jornalismo, assessoria e multimédia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e pós-graduada em Publicidade e Relações Públicas pela Universidade do Minho, formação que a fez arriscar. E porque quem não arrisca não petisca, ficámos curiosos em saber como é que se vai para altos voos.



"Estava a trabalhar numa empresa de relações públicas com um contrato "apalavrado" e um salário precário"

"Estou numa profissão com benefícios de sonho"

Quando e como é que começou a sua carreira como assistente de bordo?
Tudo começou há cerca de um ano quando decidi ir a um Open Day da Emirates no Porto. Na altura estava a trabalhar numa empresa de relações públicas com um contrato “apalavrado” e um salário precário. Como estava a ficar assustada por não saber o que viria depois, resolvi ir ao Open Day da Emirates que me convidou a aparecer lá no dia 29 de janeiro depois de ter preenchido uma candidatura online no portal da companhia aérea - o “bichinho” de querer ser assistente de bordo sempre esteve lá. Costumava dizer que o meu plano B era este, tentar ser assistente de bordo. A partir daí fui passando as diferentes fases do recrutamento e a 11 de março recebi o chamado on hold email que é quando passámos as etapas todas do processo de recrutamento e ficamos em lista de espera para ir para o Dubai, a base. A partir daí foi só tratar de testes médicos e papelada. O treino é feito depois já nos Emirados Árabes Unidos.

Como é o seu dia-a-dia na profissão?
Nesta profissão não existe uma rotina propriamente dita. Isso traduz-se no passar o egate e ir para a briefing room antes dos voos, onde discutimos o voo, o perfil dita os passageiros, mudanças na companhia e conhecemos a equipa de trabalho. Se o dia/voo corre bem ou mal depende sempre dos passageiros, da duração e do destino, claro, mas muito mais da crew (equipa). Se houver trabalho de equipa e toda a gente estiver bem-disposta e gostar do que faz, o final do dia acaba sempre por ser feliz.
Os meus dias no Dubai, quando não são passados a voar ou quando não estou noutro destino qualquer, são passados com amigos (a minha família de lá!) em piscinas de hotéis ou praias, em brunches ou jantares, em discotecas ou simplesmente nas casas uns dos outros ou então em lidas domésticas e compras de supermercado.
Qual é o maior desafio da profissão?
Entre o ter de estar longe de casa, dos meus e da minha família e o ter de lidar com pessoas de diferentes backgrounds ou que não falam inglês e muitas vezes não percebem nada do que dizemos, sinceramente não sei. Mas talvez seja a distância mesmo.

Como correu o primeiro dia de trabalho?
O meu primeiro voo “a sério” foi horrível. Tive uma passageira com um ataque de pânico, crianças a saltar nas mesas dos assentos... Enfim. Saí de lá a pensar “se for sempre assim não quero mais fazer isto, despeço-me já”. No entanto a crew foi incrível e todos nos esforçámos imenso e ajudamo-nos mutuamente. No final do sector foi só um primeiro dia que não correu tão bem assim no meio de mil e um espetaculares que viriam a seguir.

Qual foi o seu melhor voo? E o pior?
O pior foi mesmo o meu primeiro com destino a Birmingham.
O melhor até hoje foi um voo curtinho, Buenos Aires - Rio de Janeiro, pelo simples facto de fazer parte de um multisector, ou seja, a crew já se conhecia toda relativamente bem, já tínhamos passado um dia no Rio antes de ir para a Argentina e, também por isso, já sabíamos como era o sítio maravilhoso para onde íamos e, claro, estávamos todos felizes e contentes a trabalhar na cabine. Foi um voo em que a crew estava mais feliz do que os próprios passageiros que vinham super cansados de um voo longo e em que nos divertimos imenso e acho que isso transpareceu no serviço prestado - cheguei a receber um bilhete de um passageiro e tudo.

Tem alguma experiência caricata na profissão?
Há imensas histórias de bordo e peripécias do dia-a-dia que se vão colecionando à medida que vou operando mais voos. Uma vez, num voo para São Petersburgo (Rússia), tive um passageiro a vir à galley e a exigir, tudo em inglês, falar com alguém que falasse russo. Expliquei-lhe que a única “language speaker” estava em business class mas que poderia chamá-la. Como o passageiro começou a dizer que devíamos falar todos russo porque estávamos a ir para a Rússia, eu apontei para a bandeira no meu colete - cada um de nós tem um pin com a bandeira do nosso país, que representa a nossa língua materna - e disse “and you should speak Portuguese too, sir”. O mais inesperado foi o que ele me respondeu: “e falo, quem disse que não falo?” - em português! Depois disso desatamos a rir à gargalhada e eu só queria um buraco para me enfiar. Acontece que se tratava de um angolano a estudar na Rússia. A partir daí nunca mais me deixou em paz durante o resto do voo.

Trocaria a profissão por outra?
Para já não. Quero tirar o máximo partido disto: do facto de viver no Dubai e de não ter de pagar contas, de ter um salário muito acima da média em comparação com o português, de poder conhecer qualquer sítio do mundo e de usufruir de inúmeros descontos que só nesta profissão é que consigo obter. Para já o plano é este e estou a adorar. Não vai ser fácil desabituar-me deste estilo de vida e sei disso... por isso agora é aproveitar.

Está na sua profissão de sonho?
Não sei... Estou numa profissão com benefícios de sonho. Desde pequenina que tinha curiosidade em tentar isto mas sempre quis ser jornalista e continuo a escrever desde que me lembro. Não sei se existe algo como “a profissão de sonho” mas estou numa das que sempre me imaginei a exercitar, sim.  
 

"O meu primeiro voo "a sério" foi horrível. Tive uma passageira com um ataque de pânico, crianças a saltar nas mesas dos assentos"

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